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Opiário

Próxima estação: República

Passaram-se vinte anos
e este banco de metro ainda é habitado
por um fantasma tão metafísico quanto a própria metafisica.
Eterno assassino de si mesmo
que vaga
eternamente entre as plataformas de uma estação de metrô
Refém daquelas questões acerca do que é
a vida.  

Insiste numa filosofia, persiste em outra
e perde toda a existência, ao ver o que deveria ser
numa inocência quase infantil de ser ideal.
Argumenta que é da humanidade a queda que há entre si a vida
mas nada além da estapafúrdia ideia de que é homem.
Condenado à liberdade, foge para a prisão.

Corta o peso com uma faca, existencialista em sua vida
a deseja como se fosse um coração a bater em suas mãos.
Idealiza em seu subconsciente uma liberdade
a qual não pode lidar. A de carregar aquilo que é.

Tem medo e por isso filosofa a cada trem que chega à plataforma.
Espera que no meio do fluxo humano, encontre a sua alma.
Desertificado por dentro, faz uma dança invocatória de Deus
para que diante dos pés deste, chore tal qual faz a criança
que perdeu seu cão.

Desassosegado, busca na poesia de certo homem português
todas as respostas.
Crê que Deus ouve a humanidade de um homem que é vário
e que na mudança de olhares, muda a vida.
Mudado de dentro para fora, esse fantasma recusa a ver sua face
sangrar em frente ao espelho dos olhos.

Pessoa! Ele grita em voz alta quando o próximo trem chega.
Ritmado, sente a mão seca, a boca seca, os olhos agitarem-se
em orbitas loucas, rarefeitas de campo de visão, e seca a pele
e sente uma coisa metafisica chegar como a sombra de uma flor
de Hiroshima .

Morre.

Internamente prepara-se para a eternidade entre um banco e uma plataforma
na busca mecânica, existencial de mais pura metafisica.

Tudo que passa é o trem e fica, a crise de uma vã filosofia.

Valter Pessoa

Eyes Wide Shut

Delírios de uma noite que não existe
em uma visão comum
Constroem-se em desejo
numa vontade, num radicalizar
esquizofrênico
Aos olhos de um mundo, pecaminoso
aos olhos do existir, fato

Reconstrói-se em meio a lábios
o membro que em sua verdade é
aquilo que se nega, contradição

As tardes que se destoam desta terra em loucuras
consigo trazem a verdade indubitável
da humanidade, apenas a animalidade é fato.

Consuma-se em sangue, em suor e corpos
num ataque epilético visceral.

Aqui o medo não mais domina
em verdade
apenas os homens dominam
as sociedades secretas constituídas de iguais
em fome, em desejo, em carne.

De olhos bem fechados, a negação existe como vida
em tal sociedade intermitente.

Valter Pessoa

11/01/2014

Constantemente aceso está o neon.

Quiseras dizer palavras tão singelas algum dia de tua vida? Inquiria a si próprio de fronte ao espelho desgastado pelo tempo. Sentia a necessidade quase fisiológica de entregar-se a uma verborragia que fosse bela e que o livrasse das mesmas dores de sempre, que lhe acompanhavam desde muito… Até perder-se no tempo.

Sentia um algo dentro de si, algo que já não era apenas paixão, ou mesmo melancolia delimitada a um ser ou fato a ser tocado e trocado em miúdos numa conversa. Era algo mais. Não fazia muita ideia do que era, apenas que lhe apertava o peito e queria ser escrita no papel ou no ar.

Olhava todos aqueles livros que eram seus e nunca poderia tornar-lhes a alma como um jovem que faz sexo pela primeira vez.

Pedia tempo àquilo. Perdia tempo ao pedir algo que lhe escapava entre os dedos… Entre o ponteiros… Chegava ao fim um tempo finito que era breve como o gozar do casal apaixonado.

Queria abrir um buraco no peito e gritar: “Que saias tu que me incomoda à noite, no piscar dos olhos, mudar dos minutos! Digo-lhe que fale! Que respire e tome vida própria… Pigmaleão, morto e ainda condena aqueles que vieram depois de ti…”.

Pensara que o harakiri de tudo que lhe surgira nos últimos tempos lhe serviria de algo. Não. Simplesmente não… A doença que lhe o afligia era a vida daquilo que tornou-se imortal, as palavras. Ele havia se tornado tão nu quanto um esqueleto.

Valter Pessoa. 23/11/2013

Cordializar

As manhãs cantadas
nas vozes de vossos filhos
são cinzas,
queimadas
no chão de concreto.

O coração é subordinado
às perturbações de monstros
metálicos sob os pés.
Não se sente o pulsar
das batidas cardíacas em nossos peitos.

Acostumados à nada, neste mar
de um sempre igual,
estes olhos queimaram
no ato de olhar e ser olhado
por aqueles do outro lado.

Nos dias revolucionários,
o cordial é a regra nova, que imposta
transforma em palavras
o que o mundo proíbe.

As manhãs cantadas
nas vozes de vossos filhos
são cordiais, já disse um tal Buarque de Holanda.

Valter Pessoa  

Novembro

Conjuras das profundezas do ser
a magia outrora obscura
que manifesta em si a carnalidade
destes seres que somos nós.

Tomas pelas mãos aquilo que se não se controla
e na convulsão debate-se em cada milímetro.
Não o pensar, mas o estar
que é a maldição que se trás
com o Fausto que se tornam
cada um, cada um.

Evocas em ritos, as palavras
sagradas
pecaminosas que dão sabor aos dias
e juras com as forças que do âmago
surgem irrestritas
naquilo que são.
Sempre serão.

O que se mantem agora em profusão
e o que se diz líquido, és Baco
a trazer o exultante torpor.

Conjuras a esse a magia
Conjuras em magia
Conjuras tudo que sempre foi
que és, que será.

Valter Pessoa

Criança. Areia. Praia

Na beira da praia
a onda molha a areia, espuma
volta ao mar

A mão da criança pega a areia
entre os dedos ganha forma
no passar das mãos ganha vida
Vira, revira, desvira
e é viva.

Seca-se o molhado, areia seca,
estatua pronta para durar pra sempre

Fim de tarde, a criança vai pra casa
um novo visitante
com folego, sopra o vento

Beijo do vento,
areia no chão
molhada pela onda da maré.

Fabio Augusto
09/08/2013 
São Paulo

Alguém fala na noite


Vendido!
Vendido!
Vendido!

Gritam isso no breu da noite
E quem houve será que sabe que é pra si?
Silencio
ninguém ouve aquilo que não quer
ninguém vê aquilo que não quer

A lua sai maliciosa no céu
Este que olha está fétido como suas entranhas
podres

Que alma resta para aqueles que buscam
a glória de um deus cujo nome pinga sangue
em nome de um pequeno instante que já passou

Sussurram
não entende a voz que ecoa
lá longe no meio do céu escuro
pede que seja sonho bobo
que não seja devorado
pelo deus

Continua, ininterrupto sussurro
criatura, tu és casmurro
a podridão te imobilizou

01/08/2013 Valter Pessoa

Lavínia

       Acorda sempre com cara de sono mal dormido. Não se satisfaz a noite, que é para descansar, pois não dorme em paz. Revira-se no colchão como um morto-vivo. Deseja dar coices na cama para que de tão cansado, durma como um bebê que já foi. 


       Ela não sai de sua mente. Fica como uma mensagem do extraterreno e domina seus sonhos de moleque não crescido. Será por causa dela? Como não há de ser?! Essa mulher que domina a vida do homem e que sente prazer em tê-lo na palma de sua mão. Ela sádica, ele masoquista. Esse jogo cansa e revigora, parecendo os filmes americanos.

       Deseja um cigarro, talvez outro vício que não seja ela. Maldita. Não! Não pode ser maldita de nenhum modo! Ela só pode ser divina. Sim, divina, pois é a salvação de sua alma.  Afinal que salvação se torna um vício? Essa mulher o é. Toda mulher é pecado do vício e desígnio de salvação.

       Não dorme. Passa a noite acordado pensando. Idiota. Não entende que não é dono de si. Tenta fugir. Filosofa. Sim, filosofa! Tenta, de todos os modos, buscar uma saída em Fernando Pessoa.  Há salvação no não pensar? Não, não, já não pensa. Tornou-se escravo dele. Busca, em vão, mas ainda sim busca. Devora os poemas que não são seus, pois não os pode escrever. Está louco.  Deseja chocolates metafísicos para ter paz.

       Paz, não a tem há muito tempo. Fica pensando na paz que só pode ser alcançada nos lábios dela, esses lábios de Lavínia brasileira que deseja como febre. Louco! Não a tem, nem nunca terá. Doente por não ser forte para tê-la. Fraco, como papel molhado. Escreve sua loucura. Será que algo vai mudar?

       Escreve psicopaticamente num pedaço de já foi um caderno. Não tem paz. Cansa-se de cobrir páginas atrás de páginas com pensamentos que o fazem doente dos olhos. Deita-se na mesa de cansaço. Dorme e ela ainda o visita. Fantasma de sua mente que o afaga e dá a desejada calmaria. Fantasma. Como vento desaparece com a paz que trás.

      Nada adianta. Nada.

Pia


Suspira
respira
imagina 
a vida

Passa a palavra
em roda que nunca é
Pra um próximo 
que apenas espia

Espia
de frente a janela 
uma pia onde a água
corre sem parar

Corre a vida, para o ralo da pia

Vividamente

Há desejos fundamentais da alma. São negados por todas as razões impossíveis do universo especialmente quando se trata do amor. Este, coisa vinda dos abismos,  tem tesão por se fazer doer como os poetas dizem, e se não doer, não há de ser verdadeiro. Sim ou não?

Pede-se ao que sente amor, que o sinta vividamente. Que seja vitima de vivissecção pelo mais tangível prazer. Não haverá pausa. Cada minuto será vivido com a ardência de facas e beijos divinos.

Ao findar o dia, pede-se ainda que a alma, renegada de seus desejos mais profundos, como o corpo de quem se ama, seja hospedeira de mais uma dia de vida. O amanhecer trará mais desse lindo fato que é a vida.

Calejado


Era veterano de guerra e de combate feroz num passado que nem sequer havia de ocorrer. Lutava em tempos sem conexão contra inimigos que só sabia o nome. As caras deles eram outra história, isso se tinham caras para serem batidas.

Era soldado, era major, era general dos maiores exércitos que uma criança já viu. Comandava as legiões de soldados de plástico em batalhas metafísicas contra monstros mascarados de soldadinhos de chumbo. No começo não gostava de lutar, mas pegou o gosto de ser líder de um exército. 

Aquele exército, o mais moderno, mais bem treinado em anos de vida era um orgulho para os que caíram antes dele. Pensavam, que era forte! Forte apenas no sobrenome, pois no lutar, era vara de papel machê em forma de canhão de aço. 

Um dia em batalha, acordou com uma bala de verdade engatilhada na pistola feita de rolo de papel higiênico. Atirou não sabe-se onde, mas pra longe é que não foi.

Olha e vês tudo ou nada?


Espelhos não são perfeitos
nunca refletem, nem irão refletir
a verdade.

Não olhas no espelho, pois não sabe o que vê?
Não sabe se o defeito feito é em si ou onde olha
já que a filosofia diz que nunca se vê a verdade
em seus olhos ou no espelho.

O que vês? A alma?
A visão de si aterroriza ou salva?
Nada.
Ou tudo?

Ao que sabe a metafísica de ser gente, explique
a razão de ser gente para quem não sabe se é gente.

Camila Pitanga

Um dia acordas as 10 da manhã com os olhos colados daquela areia que surge como fantasma. Quer procrastinar a vida e enrola-se no cobertor e volta o rosto para o travesseiro já babado. Tolice de quem quer voltar a dormir para não estar consciente do dia ou da vida numa manhã por ai. Perde a primeira luta do dia, e é obrigado a acordar por força daquele que entra em seu quarto e força a luz pelas janelas. Com o peso do mundo em suas costas, levanta-se. Coloca o chinelo com dificuldade e pergunta por café. Viciados sempre são iguais, muda-se a intensidade.

Toma seus goles de café. Não é de hoje, pois sente o gosto forte do açúcar caramelizado num fogão junto da amargura do café. Ainda sim o toma. Come com calma quase paralítica um pedaço de pão já sem gosto com um requeijão de marca que se tornou intragável. Come, pois tem fome. Larga os restos de café e pão na mesa e empurra-os, deitando os braços e cabeça na mesa. Quer que o dia passe logo.

Tosse como um pneumotórax. Não morre agora e nem morrerá tão cedo. É apenas a visita de uma antiga conhecida. Respira com cansaço e pensa que a vida é uma merda. Não há um único dia e que ela não seja uma puta com ele, torturando-o, assando sua mente em fogo baixo. Respira, passa a pigarra na garganta.

Hoje é só mais um dia, mais um dia igual a todos os outros e por ser assim, não percebe que alguns detalhes mudaram já que crê com toda a força das neuroses que ainda tudo é repetição. Porque há de ser fazer festa hoje? Deixasse-o na cama, com um gole de café quente e feito naquele dia ( há a obrigação de que seja feito pelo menos duas vezes por dia em quantidade que lhe deixe feliz) e na cama com uma boa ópera para dormir. Isso é a felicidade.

 Pensa nela, a felicidade que é como a Camila Pitanga, uma morena simples de alma densa e que se ama apenas de saber que está perto. Ainda crê na possibilidade da felicidade. É um pessimista sem razão, e com um resto de otimismo disfarçado de fé, pede aos céus que a pigarra no peito passe, que qualquer coisa derivada do café o afague, que a amada sinta sua falta (essa sim, mulher que como coisa divina requintada pelas obras do diabo, o tem na palma da mão) sinta sua falta e queira seus braços.  Por enquanto, pensa apenas na realidade de deitar de novo.

Valter Pessoa